quinta-feira, 16 de maio de 2013

É mesmo sério isso...


O Gustavo era bem engraçado, não conseguia não rir dele, o Mu é um fofão, não tem como não gostar dele, o Felipe é meu meio irmão, daria um ótimo amigo, quem sabe... O Caio continua sem pronunciar muitas palavras, então não tirarei conclusões precipitadas sobre ele. Finalmente a aula de artes acabara, saímos e fomos pro pátio, eu me sentei em um banco com o Murillo e o Caio, por enquanto que o Felipe e o Gustavo compravam lanche para gente. O tempo esfriara ainda mais e não havia sol, apenas vento, ao bater em meus cabelos eu senti-me arrepiar e o Caio disse.
-O Letícia, tá sentindo muito frio?                                                                                  
-Estou sim, bem que o Felipe falou que eu sentiria!- ele deu sua primeira risada.
-Calma, vou ali no vestiário buscar minha blusa pra você!
-Não, nem precisa Caio!
-Nem esquenta Letícia, pode aceitar!
-Não, é sério!
-Já volto.- ele disse se levantando e ignorando o meu não.
            Eu vi os meninos vindo com o lanche de longe e encostei a cabeça no ombro do Murillo, fazendo-o relaxar os ombros pra que eu ficasse mais acomodada. Eles entregaram o lanche pra mim e pro Murillo, eu tirei a cabeça de seu ombro e os meninos disseram.
-Cadê o Caio?- olhou pros lados.
-Foi ali.- eu respondi.
-O que eu vou fazer com o lanche dele? Tô com fome.
-Me dá que eu seguro, pode comer o seu. – peguei o lanche dele da mão do Felipe.
            O Caio chegou, se sentou ao meu lado de novo e eu entreguei o lanche pra ele, que pegou meu lanche da minha mão e disse.
-Eu seguro pra tu colocar, toma a blusa. – deu-me  a blusa.
-Brigada. – vesti-a.
            Ele apenas assentiu e me entregou o lanche de volta, eu comi o salgado, bebi um pouco do suco e fui até o banheiro escovar os dentes e lavar a mão. Voltei para o banco andando devagar, de longe avistei uma menina, de cabelos longos, luzes na ponta deles, olhos claros e uma pele morena no ponto certo, logo deduzi ser a namorada do Caio, continuei caminhando devagar e ao chegar lá, sentei no meio deles de novo e ela ficou me olhando.
-E essa menina quem é, Caio? E por que ela tá com a sua blusa?- ela disse.
-Essa é a Letícia, não é da sua conta o porque de ela estar com a minha blusa e Letícia essa é a Mirela, como já deu pra perceber e desculpa pelo chilique.
-Sem problema, toma aqui a blusa.- tirei-a.
-Não Letícia, não cede aos desejos dela não. – eu o estendi a blusa e ele empurrou-a de volta pra mim.
-Não, pode pegar Caio, relaxa, o frio já passou. – eu disse me encostando no Felipe e ele me abraçou dizendo.
-Depois eu busco minha blusa pra você Leti.
-Letícia, pelo amor de Deus, ignora ela.
-Não Caio, sério. Não quero problemas pra você.
-Não vai ter Letícia, não sei porque a Mirela tá fazendo esse escândalo por causa da blusa.
-Me dá a blusa, eu tô com frio. – fez bico e tirou a blusa da mão dele.
-Eu por acaso disse que ia te emprestar Mirela.- ele olhou pra ela pegando a blusa de volta.
-Claro que vai Caio.
-Não Mirela, some daqui logo. Melhor, some da minha vida logo.- ele ficou estressado com ela e se levantou indo em direção a um canto da escola.
            Ela apenas resmungou algumas palavras e voltou para um grupo de amigas dela que estavam em uma das mesas da lanchonete. Me deu dó do Caio, ele se estressou e metade da culpa é minha, então eu disse me levantando.
-Gente, vocês sabem pra onde o caio foi?
-Ele foi pra uma mesinha que tem no fundo da escola, ele sempre vai pra lá quando tá estressado ou mal.
-Tá, vou ir ver como ele tá.
-Você que sabe! – o Felipe disse.
            Não o respondi, andei até o fundo da escola e lá estava ela com a cabeça abaixada, sentado a mesa, se lamentando de algo. Eu me sentei ao seu lado, passando a mão em seu cabelo e disse.
-Desculpa, de verdade. – ele virou o rosto pra olhar pra mim.
-Não é tua culpa Letícia, relaxa. – eu continuei mexendo em seu cabelo e ele forçou um sorriso.
-Se tu não tivesse me emprestado a blusa, ela não teria dado showzinho.- ele deu um sorriso sarcástico.
-Não guria, relaxa.- ele levantou a cabeça.
-Ainda acho que foi culpa minha.
-Escuta, Letícia. – segurou meu o meu queixo com a ponta dos dedos. – A culpa não foi tua, ela é doida, tô cansado dela. Ela insiste, eu não a quero mais, Letícia. – suspirou encostando a cabeça em mim.
-A gente nem se conhece direito ainda Caio, mas se tu tá tão mal assim, tenha pulso forte e termina com ela.
-Eu tento Letícia, mas ela todo dia tem uma desculpa nova. Agora tá falando que tá com problemas de cabeça, só falta ela engravidar de mim pra me segurar.
-Mas... Caio, fala de uma vez com ela. Diz que não dá mais, termina. – ele tirou a mão que ainda estava no meu queixo. – Na boa, tu tá se fazendo mal continuando com ela. Meu irmão disse que tu é a melhor pessoa que existe, que desde quando você tá tentando terminar com ela que está assim, todo muado.
-Pior que estou mesmo, eu não aguento mais olhar pra ela, viver nisso de ter que aguenta-la, eu não quero beija-la, eu não quero toca-la, Letícia.
-Então termina, Caio.- falei num tom mais firme.
-Eu vou Letícia e agora.- ele se levantou e nem deixou que eu falasse nada.
            Eu apenas o acompanhei de longe e resolvi não segui-lo, olhei no relógio e já estava quase na hora de voltar pra sala, então comecei a andar em direção a ela. Eu comecei a subir as escadas e avistei de longe a discussão entre o Caio e a Mirela, em um momento a escola toda calou-se e eu ouvi um único grito.
-Mirela, não insiste, porra. – colocou a mão na cabeça – Eu tô terminando contigo e pronto.
            A escola toda olhou pra eles e eu não fiz diferente, todos os olhos curiosos giravam em torno deles, ela disse algo e ele apenas negou a ela de novo e gritou de novo.
-Acabou, tá tudo acabado, pronto. – ele se virou e começou a andar.
            Ela encostou-se a ele, que se soltou e voltou a dirigir-se a sala, eu voltei a andar, mas agora um pouco mais rápido que antes e logo cheguei a porta. Eu pareci me jogar a cadeira, parecia cansada demais. Mas quanta falta de preparo físico Letícia, eu brigava comigo mesma quando o Caio se sentou na cadeira do Felipe e respirando fundo disse.
-Ufa, não aguentava mais.
            Eu não percebi que a fala de era comigo, continuei brigando comigo mentalmente até ele me cutacar.
-Oi? – eu disse confusa.
-Brigado.
-Por?
-Me dá coragem.
-Eu não te dei ela já estava aí. – ri.
-Eu não tava aguentando mais.
-Deu pra perceber. – sorri.
-Mas toma aqui a blusa, sei que tu tá mesmo sentindo frio. – colocou-a no meu colo.
-Brigada. – eu sorri vestindo-a, já que afinal de contas estava mesmo sentindo frio.
            Ele se encostou a parede, não pronunciando mais nada até o Gustavo chegar gritando.
-Até que enfim porra, ninguém mais tava aguentando tu todo amuado por causa daquela mina chata. – os três pularam em cima dele.
-Saiam de cima veados! – ele disse rindo.
-Mas essa minha irmã é um exemplo de força gente, em um dia conseguiu fazer Caio bostão executar o que estava tentando a meses. – me deu um beijo na testa.
-Ih gente, menos vocês. – eu disse concentrada nos olhos claros do meu irmão.
            Triste, eu também quero ter olho claro. Os meninos sentaram-se em seus lugares de menos o Felipe, pois o Caio estava no dele e ficamos conversando até o professor chegar. Quando ele chegou nos calamos e assistimos ao resto das aulas em silêncio. Ao terminar o sexto horário o Felipe disse.
-Oh veados vocês vão jogar play lá em casa hoje mesmo?
-A gente tava querendo ir ver aquele filme, melhor né não?
-É sim, que horas que nós vamos?
-As 15h feioso.
-Você vai né Letícia? – o Murillo perguntou.
-Não sei, vocês me chamaram?
-Estamos chamando agora!- o Gustavo retrucou.
-Se o Fe for eu vou.
-O Felipe vai!- o Gustavo disse mais uma vez.
-Então eu vou com ele.
-Tá, mas a gente tem que pedir o pai pra levar a gente, minha mãe vai trablhar a tarde.
-Conhece taxi não Felipe?
-Conheço.
-Então.
-Mas não precisa, meu irmão que vai me deixar lá, ele passa lá e pega vocês. – o Caio pronunciou-se simpático.
-Aí tu passa lá então, gay.
-Pode deixar.
            Eu parei de prestar atenção na conversa dos meninos para olhar o sms que chegara em meu celular.
“Filha, já estou esperando na porta.”
            Nem o respondi, apenas disse ao Felipe, que agora estava encostado na pilastra atrás de mim.
-O pai chegou Fe, vamos?
-Vamos, tchau gays.
-Tchau meninos. – sorri.
-Oh viado, não dá pra me dar aquela carona agora não? – o Murillo disse olhando pro Felipe.
-Vamos então, é caminho de casa mesmo.
            O Murillo foi  até o carro com a gente, entrou na parte de trás junto com o Felipe e eu fui na frente com o meu pai. Nós passamos na casa do Murillo que agradeceu e logo saiu e depois fomos pra nossa casa. Eu subi correndo as escadas, joguei a mochila na cadeira e quando estava saindo do quarto a Silvia disse.
-Letícia, troca de roupa e desce pra gente almoçar tá?
-Já estou descendo, Silvia.
            Eu voltei para meu quarto, troquei de roupa e ao ir guarda-la percebi que a blusa do Caio ainda estava comigo, então a guardei dentro do guarda-roupa pra que quando ele viesse jogar com o Felipe eu o entregasse, já que certamente não lembraria de levar pra escola. Prendi a minha franja e logo desci a escadas em direção a mesa de jantar. Coloquei minha comida, comi tudo, tomei um pouco de suco e levei meu prato até a cozinha, eu já estava indo para tv quando o meu pai disse.
-Lele, coloca sobremesa pra você.
            Voltei devagar até a cozinha, colocando um pedaço da torta alemã pra mim, sentei no sofá perto do Felipe e meu pai e a Silvia logo passaram dizendo.
-Já estamos indo pro trabalho, juízo em.
-O pai, eu e o Felipe vamos ao cinema com os meninos hoje.
-Tá ok filha, vocês tão com o dinheiro? E o cartão.
-Eu tô com os dois.
-E eu não tenho cartão, paizão.
-Fala isso pra tua mãe, Felipe. Ela que não quer deixar um cartão na sua mão, o teu tá guardado comigo, ela que tá te privando.
-Para, mãezinha. Eu mereço vai. – levantou-se correndo e a abraçou dando um beijo em seu rosto.
-Entre isso logo pra ele Marcos. Tu tá me babando, Felipe. – disse o empurrando.
            Meu pai apenas riu, assentindo e entregando o cartão ao Felipe, que sentou-se ao meu lado felizinho com o novo brinquedo.

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