O Gustavo era bem engraçado,
não conseguia não rir dele, o Mu é um fofão, não tem como não gostar dele, o
Felipe é meu meio irmão, daria um ótimo amigo, quem sabe... O Caio continua sem
pronunciar muitas palavras, então não tirarei conclusões precipitadas sobre
ele. Finalmente a aula de artes acabara, saímos e fomos pro pátio, eu me sentei
em um banco com o Murillo e o Caio, por enquanto que o Felipe e o Gustavo
compravam lanche para gente. O tempo esfriara ainda mais e não havia sol,
apenas vento, ao bater em meus cabelos eu senti-me arrepiar e o Caio disse.
-O
Letícia, tá sentindo muito frio?
-Estou sim, bem que o Felipe
falou que eu sentiria!- ele deu sua primeira risada.
-Calma, vou ali no vestiário
buscar minha blusa pra você!
-Não, nem precisa Caio!
-Nem esquenta Letícia, pode
aceitar!
-Não, é sério!
-Já volto.- ele disse se
levantando e ignorando o meu não.
Eu vi os meninos vindo com o lanche de longe e encostei a
cabeça no ombro do Murillo, fazendo-o relaxar os ombros pra que eu ficasse mais
acomodada. Eles entregaram o lanche pra mim e pro Murillo, eu tirei a cabeça de
seu ombro e os meninos disseram.
-Cadê o Caio?- olhou pros
lados.
-Foi ali.- eu respondi.
-O que eu vou fazer com o
lanche dele? Tô com fome.
-Me dá que eu seguro, pode
comer o seu. – peguei o lanche dele da mão do Felipe.
O Caio chegou, se sentou ao meu lado de novo e eu
entreguei o lanche pra ele, que pegou meu lanche da minha mão e disse.
-Eu seguro pra tu colocar,
toma a blusa. – deu-me a blusa.
-Brigada. – vesti-a.
Ele apenas assentiu e me entregou o lanche de volta, eu
comi o salgado, bebi um pouco do suco e fui até o banheiro escovar os dentes e
lavar a mão. Voltei para o banco andando devagar, de longe avistei uma menina,
de cabelos longos, luzes na ponta deles, olhos claros e uma pele morena no
ponto certo, logo deduzi ser a namorada do Caio, continuei caminhando devagar e
ao chegar lá, sentei no meio deles de novo e ela ficou me olhando.
-E essa menina quem é, Caio?
E por que ela tá com a sua blusa?- ela disse.
-Essa é a Letícia, não é da
sua conta o porque de ela estar com a minha blusa e Letícia essa é a Mirela,
como já deu pra perceber e desculpa pelo chilique.
-Sem problema, toma aqui a
blusa.- tirei-a.
-Não Letícia, não cede aos
desejos dela não. – eu o estendi a blusa e ele empurrou-a de volta pra mim.
-Não, pode pegar Caio,
relaxa, o frio já passou. – eu disse me encostando no Felipe e ele me abraçou
dizendo.
-Depois eu busco minha blusa
pra você Leti.
-Letícia, pelo amor de Deus,
ignora ela.
-Não Caio, sério. Não quero
problemas pra você.
-Não vai ter Letícia, não
sei porque a Mirela tá fazendo esse escândalo por causa da blusa.
-Me dá a blusa, eu tô com
frio. – fez bico e tirou a blusa da mão dele.
-Eu por acaso disse que ia
te emprestar Mirela.- ele olhou pra ela pegando a blusa de volta.
-Claro que vai Caio.
-Não Mirela, some daqui
logo. Melhor, some da minha vida logo.- ele ficou estressado com ela e se
levantou indo em direção a um canto da escola.
Ela apenas resmungou algumas palavras e voltou para um
grupo de amigas dela que estavam em uma das mesas da lanchonete. Me deu dó do
Caio, ele se estressou e metade da culpa é minha, então eu disse me levantando.
-Gente, vocês sabem pra onde
o caio foi?
-Ele foi pra uma mesinha que
tem no fundo da escola, ele sempre vai pra lá quando tá estressado ou mal.
-Tá, vou ir ver como ele tá.
-Você que sabe! – o Felipe
disse.
Não o respondi, andei até o fundo da escola e lá estava ela
com a cabeça abaixada, sentado a mesa, se lamentando de algo. Eu me sentei ao
seu lado, passando a mão em seu cabelo e disse.
-Desculpa, de verdade. – ele
virou o rosto pra olhar pra mim.
-Não é tua culpa Letícia,
relaxa. – eu continuei mexendo em seu cabelo e ele forçou um sorriso.
-Se tu não tivesse me
emprestado a blusa, ela não teria dado showzinho.- ele deu um sorriso
sarcástico.
-Não guria, relaxa.- ele
levantou a cabeça.
-Ainda acho que foi culpa
minha.
-Escuta, Letícia. – segurou
meu o meu queixo com a ponta dos dedos. – A culpa não foi tua, ela é doida, tô
cansado dela. Ela insiste, eu não a quero mais, Letícia. – suspirou encostando
a cabeça em mim.
-A gente nem se conhece
direito ainda Caio, mas se tu tá tão mal assim, tenha pulso forte e termina com
ela.
-Eu tento Letícia, mas ela
todo dia tem uma desculpa nova. Agora tá falando que tá com problemas de cabeça,
só falta ela engravidar de mim pra me segurar.
-Mas... Caio, fala de uma
vez com ela. Diz que não dá mais, termina. – ele tirou a mão que ainda estava
no meu queixo. – Na boa, tu tá se fazendo mal continuando com ela. Meu irmão
disse que tu é a melhor pessoa que existe, que desde quando você tá tentando
terminar com ela que está assim, todo muado.
-Pior que estou mesmo, eu
não aguento mais olhar pra ela, viver nisso de ter que aguenta-la, eu não quero
beija-la, eu não quero toca-la, Letícia.
-Então termina, Caio.- falei
num tom mais firme.
-Eu vou Letícia e agora.-
ele se levantou e nem deixou que eu falasse nada.
Eu apenas o acompanhei de longe e resolvi não segui-lo,
olhei no relógio e já estava quase na hora de voltar pra sala, então comecei a
andar em direção a ela. Eu comecei a subir as escadas e avistei de longe a
discussão entre o Caio e a Mirela, em um momento a escola toda calou-se e eu
ouvi um único grito.
-Mirela, não insiste, porra.
– colocou a mão na cabeça – Eu tô terminando contigo e pronto.
A escola toda olhou pra eles e eu não fiz diferente,
todos os olhos curiosos giravam em torno deles, ela disse algo e ele apenas negou
a ela de novo e gritou de novo.
-Acabou, tá tudo acabado,
pronto. – ele se virou e começou a andar.
Ela encostou-se a ele, que se soltou e voltou a
dirigir-se a sala, eu voltei a andar, mas agora um pouco mais rápido que antes
e logo cheguei a porta. Eu pareci me jogar a cadeira, parecia cansada demais. Mas
quanta falta de preparo físico Letícia, eu brigava comigo mesma quando o Caio
se sentou na cadeira do Felipe e respirando fundo disse.
-Ufa, não aguentava mais.
Eu não percebi que a fala de era comigo, continuei
brigando comigo mentalmente até ele me cutacar.
-Oi? – eu disse confusa.
-Brigado.
-Por?
-Me dá coragem.
-Eu não te dei ela já estava
aí. – ri.
-Eu não tava aguentando
mais.
-Deu pra perceber. – sorri.
-Mas toma aqui a blusa, sei
que tu tá mesmo sentindo frio. – colocou-a no meu colo.
-Brigada. – eu sorri
vestindo-a, já que afinal de contas estava mesmo sentindo frio.
Ele se encostou a parede, não pronunciando mais nada até
o Gustavo chegar gritando.
-Até que enfim porra,
ninguém mais tava aguentando tu todo amuado por causa daquela mina chata. – os
três pularam em cima dele.
-Saiam de cima veados! – ele
disse rindo.
-Mas essa minha irmã é um
exemplo de força gente, em um dia conseguiu fazer Caio bostão executar o que
estava tentando a meses. – me deu um beijo na testa.
-Ih gente, menos vocês. – eu
disse concentrada nos olhos claros do meu irmão.
Triste, eu também quero ter olho claro. Os meninos
sentaram-se em seus lugares de menos o Felipe, pois o Caio estava no dele e
ficamos conversando até o professor chegar. Quando ele chegou nos calamos e
assistimos ao resto das aulas em silêncio. Ao terminar o sexto horário o Felipe
disse.
-Oh veados vocês vão jogar
play lá em casa hoje mesmo?
-A gente tava querendo ir
ver aquele filme, melhor né não?
-É sim, que horas que nós
vamos?
-As 15h feioso.
-Você vai né Letícia? – o
Murillo perguntou.
-Não sei, vocês me chamaram?
-Estamos chamando agora!- o
Gustavo retrucou.
-Se o Fe for eu vou.
-O Felipe vai!- o Gustavo
disse mais uma vez.
-Então eu vou com ele.
-Tá, mas a gente tem que
pedir o pai pra levar a gente, minha mãe vai trablhar a tarde.
-Conhece taxi não Felipe?
-Conheço.
-Então.
-Mas não precisa, meu irmão
que vai me deixar lá, ele passa lá e pega vocês. – o Caio pronunciou-se
simpático.
-Aí tu passa lá então, gay.
-Pode deixar.
Eu parei de prestar atenção na conversa dos meninos para
olhar o sms que chegara em meu celular.
“Filha, já estou esperando na porta.”
Nem o respondi, apenas disse
ao Felipe, que agora estava encostado na pilastra atrás de mim.
-O pai chegou Fe, vamos?
-Vamos, tchau gays.
-Tchau meninos. – sorri.
-Oh viado, não dá pra me dar
aquela carona agora não? – o Murillo disse olhando pro Felipe.
-Vamos então, é caminho de
casa mesmo.
O Murillo foi até
o carro com a gente, entrou na parte de trás junto com o Felipe e eu fui na
frente com o meu pai. Nós passamos na casa do Murillo que agradeceu e logo saiu
e depois fomos pra nossa casa. Eu subi correndo as escadas, joguei a mochila na
cadeira e quando estava saindo do quarto a Silvia disse.
-Letícia, troca de roupa e
desce pra gente almoçar tá?
-Já estou descendo, Silvia.
Eu voltei para meu quarto, troquei de
roupa e ao ir guarda-la percebi que a blusa do Caio ainda estava comigo, então
a guardei dentro do guarda-roupa pra que quando ele viesse jogar com o Felipe
eu o entregasse, já que certamente não lembraria de levar pra escola. Prendi a
minha franja e logo desci a escadas em direção a mesa de jantar. Coloquei minha
comida, comi tudo, tomei um pouco de suco e levei meu prato até a cozinha, eu
já estava indo para tv quando o meu pai disse.
-Lele, coloca sobremesa pra
você.
Voltei devagar até a cozinha, colocando um pedaço da
torta alemã pra mim, sentei no sofá perto do Felipe e meu pai e a Silvia logo
passaram dizendo.
-Já estamos indo pro
trabalho, juízo em.
-O pai, eu e o Felipe vamos
ao cinema com os meninos hoje.
-Tá ok filha, vocês tão com
o dinheiro? E o cartão.
-Eu tô com os dois.
-E eu não tenho cartão,
paizão.
-Fala isso pra tua mãe,
Felipe. Ela que não quer deixar um cartão na sua mão, o teu tá guardado comigo,
ela que tá te privando.
-Para, mãezinha. Eu mereço
vai. – levantou-se correndo e a abraçou dando um beijo em seu rosto.
-Entre isso logo pra ele
Marcos. Tu tá me babando, Felipe. – disse o empurrando.
Meu pai apenas riu, assentindo e entregando o cartão ao
Felipe, que sentou-se ao meu lado felizinho com o novo brinquedo.